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Em nome da mãe

  • Foto do escritor: Lucão
    Lucão
  • 22 de abr. de 2022
  • 3 min de leitura

No dia em que nosso amigo nos disse que a mãe tinha, no máximo, dois anos de vida, saímos de sua casa com as nossas vidas diminuídas.


A mãe estava lutando contra um câncer no ovário, que já se espalhava pelo peritônio quando o descobriu, com risco de logo chegar a outros órgãos. Nosso amigo pegou os exames e os levou para professores especialistas da medicina. Quando nos disse sobre a gravidade da mãe e a expectativa de vida, parecia que a sentença era para todos nós.


Depois da conversa, passamos a acompanhá-la em todas as consultas, com mais atenção do que ela mesma. Quando a mãe saía da sala do médico, um de nós sempre ficava para tentar uma conversa mais “franca” com o doutor. “E então?”, perguntávamos sem perguntar. Não conseguíamos falar claramente sobre o nosso medo, mas ele percebia a ansiedade e nos dizia coisas como: “E, então, agora vamos para a próxima etapa, a cirurgia”, “E, então, agora vamos para a próxima etapa, a biópsia”, “E, então, agora vamos para a próxima etapa, a quimioterapia...”. Foi assim que a mãe lidou com a doença, cuidando do presente, avançando sobre cada etapa.


Ficamos dois anos com medo, contando dias e tentando encontrar na mãe os sinais de melhora ou piora.


O câncer foi descoberto por ela sem querer. Aos poucos fomos notando a mãe um pouco mais inchada. No começo ela dizia que precisava emagrecer. Fez exercícios, caminhadas, mas continuava inchando, principalmente a barriga. Foi aí que notou que tinha algo acontecendo. Fez exames, deu que tinha uma ascite. E em mais exames para descobrir o motivo da ascite, encontrou o câncer no ovário, já em estado avançado, espalhado pelo peritônio. Por isso o inchaço na barriga. Por isso o susto, por isso o afoitamento do amigo, por isso um prognóstico precipitado. Tudo era muito em pouco tempo.


No mesmo período, o pai teve um infarto, foi parar na UTI e dividiu os filhos em dois grupos de trabalho: um para acompanhar a mãe na cirurgia de retirada de nódulos, outro para acompanhar o pai, que não aceitava ficar na UTI, dava birras para sair do hospital. Foi um período difícil. A mãe nunca deu uma birra, sempre fez o que tinha que fazer, com uma fé em si mesma que nos fazia esquecer da sentença de dois anos. Com o pai foi o contrário, ele nunca se cuidou e tudo ficava mais difícil do que poderia ser. O pai tinha uma sentença clara. A mãe, não.


O período mais duro do processo da mãe foi quando ela nos mandou fotos do seu cabelo caindo. Então decidimos fazer uma surpresa a ela. Raspamos nossas cabeças e fomos visitá-la. Quando chegamos e a mãe nos viu, caiu num choro triste demais. Fui o primeiro a me aproximar. Ela chorava no meu peito e eu chorava sobre sua cabeça cansada de tanto brigar com a doença. Era justo o seu choro. Ela estava superando os dois anos. E nós também.


Até semana passada, a mãe não sabia dessa história, da sentença que recebeu. Então, oito anos depois da alta, liguei para conversamos. Contei tudo. E não teve susto, teve compreensão. Teve a mãe outra vez lidando com a vida de forma presente. “Estou bem viva agora, não é?”. Está sim.


No fim do papo, conversamos sobre nossos próximos oito anos de vida.

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