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Um quase milagre de Natal


Quando me dizem que não gostam da internet, me lembro dos milagres que já aconteceram comigo nas redes.

Este milagre aconteceu pouco antes do Natal.

Uma leitora me mandou mensagem pelo Instagram perguntando se eu tinha alguma parente com o nome de Thelma Brandão. Eu disse que tinha uma tia com esse nome, mas sem o H. Então suspeitei que fosse só uma coincidência. Mas a leitora insistiu e me contou que havia comprado um livro velho num sebo, e que nele havia uma dedicatória e um poema escrito pela Thelma Brandão. Depois se corrigiu, que o nome era mesmo sem o H.

Agora não parecia mais coincidência. Um livro velho num sebo em Anápolis, com o nome da minha tia, possivelmente, era da tia. Passamos uma tarde conversando pela internet, comigo querendo saber mais sobre o livro e o que estava escrito na dedicatória. Quando ela me mandou uma foto da dedicatória, tive certeza de que era a letra da tia. A semelhança com a letra da minha mãe, como o ême redondo invertido com as pontas para cima, era impressionante.

Enviei as fotos para a mãe, que me disse a mesma coisa. Era a letra da tia.

Fiquei empolgado com a história. Quis saber mais sobre onde ela havia encontrado o livro, de que ano ele era, se tinha alguma data junto à dedicatória. Ela disse que tinha. Aquele texto à mão era de mil novecentos e oitenta e um, escrito há quarenta e dois anos, três anos antes de eu nascer.

Que reencontro raro com o passado, pensei. Que reencontro esquisito, pensei de novo.

Não me lembro de ter lido nada escrito pela tia Telma. Desde pequeno, desde que me recordo da vida com ela, minha tia se dedica plenamente à igreja. Vai à missa quase todos os dias, faz trabalhos com a comunidade católica, reza em todos os encontros da família. A tia vive para Cristo. Mas eu também já soube que antes ela não era assim. Era hippie, namorava, saía, vivia uma vida mundana, como dizem. Eu nunca vi essa tia. Nunca ouvi falar sobre namorados ou amores da Telma. A única coisa que soube é que depois de uma história dramática em sua vida, passou a se dedicar à igreja como forma de se desculpar com deus. Pelo o quê? Não sei.

Pedi mais fotos do livro à Sâni, a leitora. Comecei a ler os textos, a dedicatória e o poema escritos à mão pela Telma de quatro décadas atrás, e vi que o livro estava dedicado ao Gilmar. O Gil. O meu tio que faleceu antes de eu completar dez anos.


Que saudade que me deu dessa época com o Gil. Que vontade de saber como ele recebeu esse livro. Que vontade de ter conhecido essa outra tia, que escrevia e enviava palavras de amor em livros.

Pedi à Sâni que me vendesse o livro. Ela se recusou. Me deu o livro de presente, me devolveu a história da família. Então organizei um encontro entre elas: minha tia, minha mãe e a Sâni. Uma semana depois, minha mãe me enviou a foto das três em um café.

Não estavam só as três no café. Na foto eu também via o tio Gil e a tia hippie abraçados, trocando amores e poemas.

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