top of page
  • Twitter - Black Circle
  • Ícone do Instagram Preto
  • Ícone do Facebook Preto

Praia da espera

  • Foto do escritor: Lucão
    Lucão
  • 10 de set. de 2021
  • 3 min de leitura

ree

Depois de cem dias no mar, entre ventos fortes, aves, tubarões e baleias, Amyr Klink havia chegado ao destino da sua aventura, a Bahia. E como se não bastasse chegar à Bahia, também havia chegado à praia cujo nome é o mais bonito que alguém poderia dar a um monte de areias: a praia da Espera.


Faz quase quinze anos que li “Cem dias entre céu e mar”, do Amyr Klink, que narra sua história da travessia do oceano Atlântico num barco a remo. Daí ontem me peguei pensando em literatura, na minha paixão pela leitura, em como me comovo com certos livros, e me lembrei desse trecho, do navegador chegando à terra firme. No livro, ele conta que a praia se chamava “Espera” pois era uma praia de pescadores, onde, ao fim de cada dia, as mulheres esperavam seus homens voltarem do mar. Não é lindo?



Faz, aproximadamente, vinte e dois anos que comecei a gostar de ler. Foi com quinze anos que peguei espontaneamente um livro e pensei: “Parece que eu gosto de ler”. Desde então li muito, passeei pela literatura, descobri a riqueza que é ler por prazer. Li de tudo: de Agatha Christie e Conan Doyle a Elena Ferrante e Virginia Woolf; de Paulo Coelho e Rubem Alves a Manoel de Barros e Adélia Prado; de Paulo Leminski e Cacaso a Ana Martins Marques e Elisa Lucinda; de Cora Coralina e Drummond a Gabriel García Márquez a Eduardo Galeano. E só depois de tantas travessias, e com os pés firmes em terra, que hoje consigo ter clareza sobre o meu gosto.


Descobrir sobre o próprio gosto é uma travessia que demora e dá trabalho. É cheia de tormentas, de livros difíceis e ruins, de decepções... Mas também é uma travessia de encontros: há pássaros no mar, há peixes, baleias, ventos refrescantes e, principalmente, há um navegador.


Ontem, fiquei pensando sobre mim. Ninguém me ensinou a gostar do que eu gosto de ler hoje. Isso eu descobri navegando sozinho. E por isso também fico aflito pensando nas pessoas que estão a navegar sozinhas, tristes com a travessia, com medo, limitadas a gostar de literatura a partir de uma única leitura. Muitas não vão conseguir.


Num país onde o professor precisa atravessar o atlântico num barco a remo, é muito difícil que a leitura seja uma descoberta prazerosa. Quase sempre, quando acontece, é uma sorte misturada a um pouco de privilégio. Digo isso porque o meu gosto pela leitura veio de um certo privilégio que tive, de ter pais que gostavam de ler. Minha mãe sempre comprava livros e colocava nas estantes de casa. Foi de lá que arranquei Paulo Coelho, aos 15 anos, e comecei a ler. Um autor que, a depender das críticas mais “sofisticadas”, eu não teria lido. Foi o meu princípio prazeroso na literatura.


Hoje eu me sinto nessa praia da Espera, como um navegador que acabou de atravessar o atlântico num barco a remo. Um pouco cansado por ter enfrentado as tormentas, quase sempre sozinho, mas também realizado por ter conseguido chegar.


Não. Eu não sou pessimista. Sempre fui otimista sobre o futuro. Num país onde a leitura ainda mal acontece, ter novos leitores é quase que o único futuro possível.


Por isso, talvez eu me mude para a praia ao lado, a que se chama Esperança. Mas dessa vez eu não vou só. Vou com o meu barco e com um livro que eu gosto nas mãos.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page