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Não gosto quando você se senta na minha máquina de lavar


Era seis da manhã de um sábado quando acordei com vontade de fazer "xixi". Tinha passado a noite com amigos, ainda estava morrendo de sono, pretendia voltar do banheiro direto à cama. Mas no meio do caminho, o interfone tocou. Tive medo: "Será que mijei no lugar errado?".


Fui atender, e o porteiro, sem graça, me pediu desculpas: "O pessoal veio entregar sua máquina". O medo se transformou em alívio. Meu investimento havia chegado. Quem é adulto sabe a felicidade que uma máquina que “Lava e seca” pode trazer para a nossa vida. Eu estava ansioso para receber a minha, e nem me importei com a hora, pedi que subissem.


Ainda estava de meias e cueca — e ressaca — quando o entregador tocou a campainha. Abri a porta e ele estava visivelmente mais envergonhado com a hora do que com a minha roupa. Me pediu desculpas, arrastou a máquina até o meio da sala e depois me entregou o canhoto para que eu assinasse: "Nós estávamos pelo bairro, chegamos mais rápido do que prevíamos". Eu disse que estava tudo bem, que havia acordado àquela hora. E quando ele ameaçou ir embora, pedi que me ajudasse a colocar o trambolho na área de serviço. Ele topou, como se me devesse esse favor.

Não consegui mais dormir. Havia acabado de me mudar para o apartamento e, mais do que querer, precisava estrear a máquina com as roupas que já estavam sujas há semanas. Passei o dia instalando, testando e usando o equipamento.


No dia seguinte, uma amiga apareceu para me ver. Veio tomar café, passar o dia. Fomos para a cozinha. E no curto tempo em que levei para encher a cafeteira de água e pó, minha amiga se aproveitou para se sentar sobre a máquina de lavar. Fiquei arrepiado quando vi a cena — não excitado, como nos filmes, quando a mulher se senta na máquina e o casal se beija —, fiquei nervoso, sem saber como fazê-la descer. Não hesitei e pedi, sem romantismo: "Desce daí!". Ela ficou sem jeito, achou que eu estava brincando, mas repeti para que entendesse: "Por favor, desce da máquina!". E ela desceu.

Ficamos um tempo discutindo sobre a importância que eu dava para a máquina — e sobre como eu não era tão romântico como ela havia imaginado. Também justificou-se dizendo que era muito leve para o equipamento, mas eu não queria saber o seu peso. Só queria que descesse da máquina. Por uma questão de prioridades.


Por escrever bastante sobre o amor, é comum que as pessoas pensem que eu seja romântico. Não quero negar o meu romantismo, mas devo dizer que somos todos diferentes, inclusive na forma de sermos românticos. E o meu romantismo existe, mas nada tem a ver com uma máquina de lavar.


Sou romântico como ninguém é, da forma mais literal que essa frase soe. Somos todos diferentes uns dos outros, inclusive no jeito de sermos românticos. Aliás, sou romântico, mas não sou só isso.


Por fim, preciso encerrar essa história dizendo que o meu romantismo não tem nada a ver com um trambolho que lava e seca.


Sou romântico, mas não gosto quando você se senta na minha máquina de lavar.