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Me deixa fazer uma coisa certa?



Minha mãe, quando fala do pai, distingue bem as duas pessoas, o marido que ela teve e o pai que ele foi para nós. Ela sempre fez isso. Desde que se separaram, comigo ainda pequeno, nunca foi de falar mal do pai para mim. Já falou de como foi difícil a relação que tiveram. Também já disse que talvez não deveriam ter se casado, poderiam ter ficado só no namoro, quando ainda era bom. “Mas aí tivemos vocês, que justificam tudo”, ela completa com a elegância que é dela.

 

Quando fala do pai é cuidadosa. Evita falar de um jeito duro, para que a mulher-esposa não se misture à mulher-mãe. A mãe é generosa, porque eu sei que meu pai não foi um bom marido. Mas foi um pai que ela não precisa falar mal. Um pai que, ao contrário dos outros, nunca sumiu.

 

Ontem, quando liguei para ela para que me ajudasse a lembrar de algumas histórias que eu queria escrever, fez a mesma distinção, reforçando que poderia falar separadamente das duas pessoas. Mas que do pai não tinha do que reclamar. Repetiu que ele foi um bom pai, mas disse outras frases bonitas, como se dissesse coisas pequenas, mas não eram. Então comecei a anotar: “Honrar o seu pai é importante para você. Mesmo com os conflitos. Quantas pessoas não gostariam de ter conflitos com um pai presente? Muitas só tiveram a ausência”.

 

Essa elegância ela tem com todos. Pois também me lembro que quando eu ligava para conversar sobre os meus namoros e pedir conselhos, ela não falava da outra pessoa. Me apontava as minhas questões e dizia: “Cuida disso”, “Cuida daquilo”. Esse cuidado de não misturar os assuntos é dela.

Na ligação de ontem, eu queria saber de outra história. Pedi para que me ajudasse a lembrar do momento em que o pai apareceu com a ideia bonita de assumir a paternidade da Gabi, minha irmã do meio. Antes da Gabi nascer, o homem que deveria ser o seu pai, fez o que muitos homens desse planeta fazem, somem para outro planeta. Daí o meu pai, já experiente na função, também antes dela nascer, apareceu para dizer que gostaria de assumir a Gabi. Claro, se a mãe aceitasse...

 

Eu me lembro da cena do carro, do pai nos deixando em casa e, antes de se despedir, de nos contar que gostaria de ser o pai dela. Pediu para que falássemos com a mãe sobre o assunto. Agora me recordo também da alegria e do alívio que senti em saber que a Gabi teria o mesmo pai que a gente. Só não sabia do final da história, a que minha mãe me contou ontem, sobre a conversa que tiveram sozinhos depois.

 

“Eu precisava saber por que o seu pai estava fazendo aquilo”, minha mãe me explicou. E continuou: “Se ele me dissesse algo como: “É para consertar a bagunça que você fez”, como os homens costumam fazer, culpar as mulheres, eu o mandaria embora”, ela falou firme. Depois repetiu, palavra por palavra, o que ele disse naquele dia: “Eu fiz muita coisa errada nessa vida. Me deixa fazer uma certa?”. E minha mãe então deixou.

 

Só vinte anos depois da Gabi nascer, meu pai fez o que nenhum pai deveria fazer com os filhos: sumir desse planeta. Mas vez ou outra ainda aparece no horizonte e me lembra de honrá-lo.

 

Não por tudo. Mas quase. Bem quase.

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