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Fotografias de um funeral


Eu não deveria estar naquela enfermaria assistindo ao meu avô morrer. Nem o meu avô deveria morrer sem ser assistido por alguém que o pudesse salvar. Eu não podia salvá-lo.


Me pediram para ficar com ele só um pouco enquanto outra pessoa viria para acompanhá-lo. E no tempo em que fiquei, ele não abriu o olho. O que ele fazia era, de vez em quando, respirar fundo. Algumas vezes, parava de respirar por alguns segundos, depois voltava como se estivesse voltando do fundo de um oceano. Eu não me esqueço desse dia, dos últimos respiros do vô.


Depois que saí do hospital, fui para casa da vó encontrar com a família. Foi nessa hora que ligaram para avisar que ele havia morrido. Hoje eu tenho certeza que o vô morreu comigo, no quarto da enfermaria, naquele oceano.


Foi a partir da morte do vô que mudei minha ideia sobre as perdas. Antes, eu não dava importância para o luto, não sentia o aperto no estômago. Enquanto a morte não ameaçava meus próximos, não me arrancava uma lágrima. Eu era indiferente sobre as perdas. Depois que o vô morreu, deixou em mim esse peso de ter sido indiferente a tantos lutos. Eu sofri, senti esse roubo de deus como nenhum outro antes.


O vô era um “vozão”. Ligava todos os dias com alguma desculpa para irmos vê-lo. Preparava comida gostosa, comprava presente, fazia pipa pra gente soltar, carrinho de rolimã... Ele nunca disse “venham me ver”, mas tudo que fazia era para que fôssemos vê-lo.


Convivi muito com essa parte da família, os avós maternos, os tios e primos. Foi na perda deles que comecei a sentir aperto quando pessoas queridas morriam.


Foi no enterro do vô que chorei uma morte pela primeira vez. Foi lá também que vi minha mãe se derramar. Logo ela, a filha que o enfrentava com mais vigor, que já havia sofrido demais por essa família que, mesmo amorosa, não se estruturava direito. Era sempre a mãe o centro, que resolvia os problemas de cada tio e tia, que cuidava dos machucados de cada um até sará-los. E que depois sofria com os desrespeitos e a ingratidão. Minha mãe não negava cuidado, mas tinha esse peso também de ser negada. Daí ela se derramou no velório do vô, puxando nosso choro, dos filhos, enquanto falava sobre as memórias que tinha do seu pai. Ver minha mãe chorar, mudou meu jeito de olhar para essa família.


Depois, na morte do meu pai, não parei de escrever sobre esse luto. Era minha emoção derramada. Escrevi por muito tempo, chorei em cada texto que escrevi, chorei sobre cada memória que recordei, chorei no aeroporto, no avião, na página do caderno de bolso... Chorei como meu pai choraria. Ele chorava por tudo. Mas eu estava chorando só por ele.


Aí a vó morreu no fim de 2021, e eu tenho chorado mais. Me emociono com bobeiras, cenas de filmes, trechos de livros, músicas... Tudo que morre, tudo que vai embora, me lembra essas perdas. Não estou triste, não é isso, sei que não é. Já parei para refletir e não há uma tristeza profunda em mim.


Sinto que — como tenho dito aos amigos — eu esteja mais emocionado. Talvez, agora, não só com as alegrias, mas também com as tristezas que vejo nas fotografias desses funerais.