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Como nasce uma amizade


O Lu tem um cabelo preto e branco e bastante volumoso. Os fios são grossos, e isso deixa seus pelos ainda mais em destaque. Toda vez que o encontro, acho seu cabelo mais bonito, com o estilo que eu gostaria de ter — e que eu ainda tento cultivar, mas não consigo por conta da perda natural dos meus fios, que estão cada vez mais escassos e finos.


Gosto do meu cabelo, já usei a cabeleira comprida. Hoje tento voltar aos fios maiores, mas tem sido difícil, ora por minha preguiça em cuidar deles, ora pelas mãos ansiosas dos cabeleireiros que cortam mais do que eu gostaria que cortassem. Quando o Lu aparece, quando a gente combina de se ver para matar saudade, fico nessa inveja, torcendo para que ele deixe os cabelos crescerem mais, se avolumarem sobre o rosto, para que eu me satisfaça através dele, o meu amigo.


Que bonito poder dizer isso, e de ter o Lu, um amigo, num lugar especial da minha vida.


A história da nossa amizade é terna. Nos conhecemos há um ano, enquanto eu terminava um namoro. Não era meu melhor momento, mas o Lu — ou melhor: o pesquisador Lu, pós-doutor, professor da Unesp — apareceu através das redes e me fez um convite para ministrar uma aula para a sua turma. “A aula se chama “novos saberes””, ele me contou, e me deixou à vontade para pensar num tema para o encontro. Apenas pediu para que eu falasse sobre a escrita. Então bolei uma aula com o tema: “Onde nasce o poema?”.


Foi lindo o encontro, que misturou gradudos, mestres, doutores e convidados. Falei por uma hora e meia sobre a poesia, com todos me ouvindo atentos. Depois da aula, continuamos nos falando, eu e Lu, enquanto eu ajeitava minha nova vida, me mudava para meu novo apartamento, me tornava seu vizinho.


Tomamos muitos cafés, caminhamos pelos arredores da Av. Paulista, e o Lu me apresentou à minha nova região, me contou histórias sobre sua família, ouviu sobre meu povo também. Começamos a nos falar constantemente, e se tornou um amigo precioso num momento em que, sem combinar, eu precisava. Quando eu me centrei, foi a vez de Lu se descentralizar, viver seu drama com a partida de sua mãe. Mudamos de lado, virei seu ouvindo, e nossa amizade foi compensada assim, com esse giro de afeto.


Agora, um ano depois, ontem mesmo, aqui em casa, Lu veio me ver, conhecer minha nova namorada, como se celebrássemos esse primeiro ano de amizade fechando um ciclo, inaugurando um novo. Como se comemorássemos o nascimento de uma nova vida, que continua a mesma, mas com flores novas. Como se a primavera estivesse recomeçando, mas mais bonita.

Tomamos um vinho rosé na varanda apertada: eu, o Lu, a Lais, a tarde fresca, a salada que caiu no chão, a minha cadeira que me derrubou, a mesa abarrotada de empanadas e taças de vinho e copos de água, nossos encantamentos uns com os outros, nossas histórias, nossas escutas.


O Lu está indo passar um semestre na França, à trabalho. Ontem celebramos isso também. Mas mais do que isso, celebramos o nascimento da nossa amizade. E comemoramos a certeza de que depois dos seis meses, ele vai voltar e a varanda vai estar do mesmo jeito. Claro, sem a salada no chão. E com mais plantas e flores e vinhos.


É assim que nasce uma amizade.

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