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Bailinhos


“Comece pelo o que você gosta”, é o que eu digo a quem quer escrever, mas não sabe por onde começar. E aí eu me lembro que gosto de dançar, mas que nunca escrevi sobre a dança.


Não há como esquecer. Eu gosto de dançar.


Sou tímido, mas se há uma coisa que gosto de fazer é dançar. Assim como a vizinha que dança, eu também sou o vizinho que dança — escondido, mas sim. Também não danço tão bem, não me filmo dançando como ela mesma fez, e jamais na varanda, pois sou tímido. Mas sempre danço. Mesmo que escondido, entre o vão da cozinha e do banheiro.


“O corpo é uma festa”, diz Galeano. E eu danço na festa. Também leio Chacal para lembrar que a dança não é quando: “Vai ter uma festa / que eu vou dançar / até o sapato pedir pra parar. Aí eu paro / tiro o sapato / e danço o resto da vida.”.


Esse meu gosto herdei da mãe. Ontem mesmo ela mandou um vídeo no grupo da família, era ela dançando com um amigo. “Será que ela fez o que gosta ontem?”, foi a mensagem que a mãe mandou logo abaixo do vídeo.


Teve um tempo em que eu e o Henrique, meu gêmeo, ensaiávamos dança em casa para apresentar nas aulas de dança de salão que a mãe fazia. Éramos tímidos, mas com a dança a timidez também dançava. Nos apresentávamos para uma turma de alunos mais velhos da escola que minha mãe frequentava. Era sempre no fim da aula a nossa apresentação, quando os alunos já haviam dançado. Éramos os últimos, mas, sem dúvida, os mais empenhados em se superar.


Quando a mãe e o pai se separaram, foi difícil aceitar que eles não dançariam juntos mais. Nas festas de família, quando a mãe aparecia dançando com outra pessoa, agarrávamos em suas pernas até que ela parasse. Ela só podia dançar com o pai, me lembro disso, da tristeza que eu sentia ao vê-la com outro, dos ciúmes que me travavam as pernas, enquanto agarrava nos pés da mãe. Depois passou.


As lembranças do meu corpo dançando são tantas... Teve uma festa em que eu e Henrique — sempre ele — dançamos hip hop. Não tínhamos vinte e cinco anos, abrimos uma roda na boate e dançamos, sem pensar se o que estávamos dançando era hip hop de verdade. Mas não havia mentira naquela nossa dança.


Meus namoros também já começaram em pistas de dança. Uma vez, dançávamos, eu e ela, numa cidade pequena, num bar com uma pista de madeira, que emborcava e gemia enquanto íamos para lá e para cá. Ficamos por lá a noite toda, e pela manhã já éramos namorados.


Também já terminei um namoro porque um corpo dançou numa pista quando era perigoso dançar. Mas esse é outro assunto.


Fiquei os últimos dois anos sem mexer meu corpo numa pista, até quase me esquecer de como se mexia o corpo. Depois as vacinas me deram coragem para voltar. E me lembrei que o corpo, como Galeano disse, é mesmo uma festa.


O corpo é uma festa.


O corpo da vizinha, mesmo em pranto, era uma festa. O corpo da minha mãe, casada ou divorciada, sempre foi uma festa. Meu corpo e do meu irmão, mesmo com o mesmo DNA, eram duas festas distintas acontecendo no mesmo lugar.


Não há como esquecer. Eu gosto de dançar. E o meu corpo, quando dança, assina um contrato com a eternidade.