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Aceita um brigadeiro?


Eu disse à minha mãe que têm histórias que eu só vou conseguir escrever depois que ela morrer.

É uma frase pesada para se dizer a uma mãe, principalmente à minha, que torço tanto para que viva muito. Pesada para se dizer a uma mãe e também para se escutar de um filho, fiquei pensando...

Outro dia, quando repeti essa frase a ela e expliquei o que queria dizer, sobre não querer magoá-la com meus textos ou de ser mal-entendido por ela, uma mulher tão importante na minha vida, ela me disse de volta: “Você está autorizado a escrever, eu aguento”. Achei lindo, mas não esperava. E isso me deixou mais ainda mais bloqueado.

Se alguém me dissesse o que eu disse à minha mãe, eu ficaria tão curioso quanto furioso. Quais histórias uma pessoa que me ama não poderia escrever enquanto eu estivesse vivo? Mas minha mãe, com essa resposta, me fez perceber a besteira que eu estava dizendo.

Eu deveria dizer a ela que “Enquanto você viver, vou tentar escrever o máximo de histórias que eu puder para você ler”. Esse é o meu trabalho, tentar escrever o máximo de histórias para os meus leitores, inclusive para minha mãe. Minha mãe é uma das pessoas que mais me lê, que me acompanha, compra todos os meus livros, fala deles nos grupos de whatsapp, dá de presente para a família, as amigas e também para o reitor da Universidade em que me formei. Minha mãe é a pessoa que merece o máximo de textos que eu puder escrever.

Paradoxalmente, é por isso que eu não quero magoá-la, porque ela é esse amor com meu trabalho, mesmo sabendo que nós não temos histórias “magoáveis”. Mesmo sabendo que tudo que vivemos, das histórias boas às ruins, já está passado a limpo de um jeito franco e terno. Atualmente, quando nos encontramos, conversamos como quem tenta alargar os assuntos. Sou curioso sobre as histórias que ela conta sobre seus pais, meus avós. Minha mãe tem muitas histórias e sabe jogar comigo, me oferece acontecimentos como quem me aborda com uma bandeja cheia de brigadeiros: “Aceita um brigadeiro? É de graça?”. Eu aceito, mastigo e depois escrevo sobre o doce.

Estou escrevendo sobre um novo doce, e ela sabe que tem a ver com uma história amarga que ela viveu. Foi ela mesma quem me contou. E eu gostei tanto da história, que me inspirou a pensar num novo romance. Mas eu não quero que a minha escrita faça minha mãe sentir de novo o que ela já sentiu e doeu. Ela me disse que posso escrever, mas mesmo sabendo que o que escrevo é literatura, tenho medo dela sentir o amargo de novo. Se penso que vai mexer com minha mãe, prefiro adiar. Ao menos por ora.

Minha mãe, mais uma vez, está me fazendo me mexer, minha mãe viva. Talvez escrever essa história seja uma forma de retribuir o que ela me fez por toda a vida.

Minha mãe está certa. Ela aguenta. Então eu também devo aguentar. Talvez eu já esteja aguentando e essa crônica seja uma anunciação disfarçada de prosa. Espero que ela leia este texto e me envie outra mensagem no whatsapp dizendo: “Eu aguento”.

Eu aguardo.

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