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Todas as sextas-feiras

  • Foto do escritor: Lucão
    Lucão
  • 3 de set. de 2021
  • 3 min de leitura

Todas as sextas-feiras eu faço tudo quase sempre igual: acordo, tomo café e começo a organizar os pedidos de livros da semana. Depois do almoço, vou ao Correios levar os pedidos dos leitores. Mas cada sexta é diferente.


Nenhum café-da-manhã é igual: às vezes mais cedo, às vezes amargo, com ovos ou bolo ou pão de queijo... Ou seja, nunca repeti as sextas, mesmo que elas se pareçam. Mas tem mais.


Se acordo numa sexta em São Paulo e está frio, essa sexta já é diferente da sexta passada, que possivelmente choveu ou fez sol. E aí, minha leitora ou leitor, já é outra sexta. E não é só isso.


Preparo os pedidos, que a cada semana são outros, que vão para o norte, para o sul, sudeste, nordeste ou centro-oeste do país. E cada pedido tem um nome e uma dedicatória, alguns vão com mais de um exemplar do mesmo livro, outros com livros diversos. E tem mais.


Sempre vou aos Correios depois do almoço. Então, a depender do que eu coma, à tarde sou outro. Às sextas, extrapolo, como besteiras. Depois, tomo café com um pedaço de doce — que nunca é o mesmo —, escovo meus dentes e vou aos Correios. E não é só isso.


Ainda tem o detalhe da roupa que, caso faça frio ou calor, são outras. Nos dias de frio, roupas e cenários são mais melancólicos. Nos de calor, roupas e paisagens são mais alegres. No frio, uso moletom, tênis e meias mais pesadas. Aliás, você sabe quanto pesa uma meia quando digo que é “mais pesada”? E continua.


Adoro o percurso que faço. Saio do meu prédio e sigo por uma única rua, até o shopping. É uma pequena descida, que, logo no começo, faz uma curvinha à esquerda, e segue até uma praça pequena em formato de triângulo. Nesse trajeto também têm árvores altas e robustas que, a depender do dia, ficam com os galhos cheios de folhas e cores vivas ou galhos vazios com folhas opacas. Da praça triangular ao shopping, caminho mais alguns poucos metros por uma ruazinha estreita e de asfalto liso. Então, chego ao shopping, desço as escadas rolantes, atravesso a praça de alimentação e chego aos Correios. Mas tem mais.


Se o shopping está cheio ou vazio, o passeio muda. Costumo ficar irritado com o shopping cheio, então ando rápido, vou direto aos Correios. Nos dias vazios, ando devagar, vejo as lojas, as pessoas e viajo enquanto caminho, penso mais quando não há distração. E ainda tem a espera na fila dos Correios. Tem a atendente, que quase nunca é a mesma. O “boa tarde” que a gente se dá, a espera enquanto ela registra os pedidos. Na volta, às vezes passo num café ou numa loja ou num quiosque... Nenhuma sexta é igual.


E se nenhuma sexta da minha vida é igual, imagine as nossas sextas, minhas e suas, e as sextas dos outros. Imagine mais: os nossos textos inspirados nas nossas sextas. Se não vivemos as mesmas vidas, por que nossos textos de sextas se pareceriam?


Escrevo isso para dizer que escrita bonita é aquela que conta o que só você poderia contar. Não existe fórmula para escrever bonito. A não ser que todas as vidas se pareçam com a minha sexta, que, ainda assim, nunca é a mesma.


Apesar de eu fazer tudo quase sempre igual.

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