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Iguais nas diferenças

Em algum momento, cheguei a pensar que a poesia não fosse um lugar para mim, porque ouvia a história de que o poeta era uma pessoa triste. Faz tempo que escuto isso, é da escola ainda.


Demorei anos para elaborar meu pensamento e ter consciência sobre minha escrita. Mas me deixa triste de lembrar que é assim que ainda aprendemos sobre literatura. Sei que isso não é só comigo, essa história de ter que se encaixar num lugar que não é nosso pra caber na literatura.


Muita gente desiste, não escreve, porque acha que não encaixa, que não cabe. Descobri o contrário, meio só, meio acompanhado dos livros... Passei vinte anos desconstruindo o que ouvia sobre a literatura, sobre esse clubinho de gente que deveria ser igual.


Aprendi a ler e a escrever lendo e escrevendo. E percebi que era a diferença a coisa mais valiosa na literatura. Ler um artista diferente era o que mais me motivava a ler. Fui tomando consciência assim, com meus espantos. E se a mim importava a diferença, será que para o meu leitor, minhas diferenças também não seriam importantes?


Não só o meu riso, mas minha tristeza, diferente da tristeza dos outros poetas tristes, não seriam itens de valores iguais aos dos poetas tristes? Passei a escrever, inclusive, sobre os dois, riso e a tristeza: "Sou poeta do pior tipo que existe. Sou alegre e isso é triste". Minha tristeza também é diferente e, por isso importante; minha dor nas costas dói diferente da sua; meu corpo esquenta diferentemente do seu. Meus amores amam de um jeito diferente...


Uma amiga me chama de poeta alegre. Eu gosto. Mas me deixa ainda mais curioso para saber como é a alegria de um poeta triste... Será que ela também gostaria de saber sobre a tristeza de um poeta alegre? Aposto que sim, pois é uma tristeza diferente. Sempre vai ser.


Literatura, para mim, é isso, de contar as histórias difererentes, que só a gente pode contar.


Claro que não é só isso, antes que meus mestres apareçam. Mas é meio que por aí. Ao menos para mim.

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