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Sommelier de palavras


Adoro vinho. E passei a gostar mais quando aprendi que não precisava gostar de tudo. Já provei muitos vinhos que não me agradaram. Também já provei vinhos que sei que são ruins e agradariam a quase ninguém. Eu não gostava de vinho, mas passei a gostar quando entendi que existia uma variedade da bebida, com sabores e elementos que ampliam e melhoram a experiência da degustação.


Não sou um sommelier. Longe de ser. Só gosto de provar e de saborear a complexidade da bebida. Não cumpro à risca os rituais de uma degustação, mas adoro o conjunto “rótulo”, “cor”, “sabor”, “região de origem”, “história da vinícula”. Para mim, é o que torna o vinho interessante: as histórias.


Com o tempo e algumas garrafas no currículo, tive clareza sobre meu gosto, já conheço algumas regiões e tenho as favoritas, que não são especiais só pelo sabor, mas também pelas histórias. Por exemplo: eu adoro os vinhos de Rioja, região da Espanha. Por duas vezes atravessei o país espanhol caminhando. Nessas jornadas, passei pela região de Rioja e provei na fonte os vinhos produzidos por lá. Eu não estava sozinho. Estava rodeado por pessoas que faziam o Caminho de Santiago. E esses encontros, as conversas, as comidas e toda nossa experiência de peregrinos criaram memórias mais saborosas para recordar bebendo um Rioja. Sempre que encontro um vinho dessa região, me vêm as lembranças dos amigos e das histórias.


Não precisa ter feito o Caminho para gostar de um Rioja. Quem ainda não conhece a região mas gosta de vinho, possivelmente vai gostar dos tintos de lá. São saborosos, aromáticos, cores fortes. A produção de vinhos de Rioja é respeitada, pois passa por um processo de certificação rigoroso que assegura a qualidade da bebida. O que eu quero dizer é que, mesmo não conhecendo a região, o vinho tem história, é bom.


Mas o que eu mais gosto dessa minha relação com o vinho é que ela se parece muito com minha história com a poesia. Eu também não gostava de poesia. Tudo que eu provava, achava ruim. Até entender que o que eu conhecia de poesia era só um pedaço de um universo de possibilidades poéticas. Eu não sabia nada dos versos. Só conhecia os sonetos.


Aí, como já contei em outras crônicas, conheci Rubem Alves com sua prosa poética, o pássaro pousado no dedo pra falar de amor, e entendi que havia provado muito pouco dessa bebida. Daí fui a Mario Quintana, Manoel de Barros, Adélia Prado... Poetas que me fizeram provar outros sabores, cores, sentimentos. Fui gostando cada vez mais do embriagamento que a poesia provocava em mim. Isso de me deixar pensando por horas e horas depois que o verso termina, é como o vinho bom que degusto, que enche minha boca de sabores, me traz histórias novas, provoca meus sentidos.


“A borboleta pousada. / Ou é Deus / ou é nada”, de Adélia Prado, é esse tipo de poesia que me pega e me deixa pensando. Me leva à infância, pro tempo em que brincava nos jardins das borboletas pousadas. Eu só sabia que havia uma borboleta pousada no jardim quando ela voava. Era nada, até ser tudo.


Quando descobri que uma boa poesia não me subestimava e guardava muitas outras histórias, passei a gostar mais da bebida.


Abri até uma vinícula. Agora eu mesmo produzo poesia.