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O dia que o Brasil chorou no molhado

Dois mil e dezesseis não tem sido um ano muito fácil de acompanhar. Os fatos, as notícias e as emoções se atropelam. Os acontecimentos escorrem pelos corredores de Brasília, supitam dos cofres de empreiteiras, se amontoam em Bangú e ecoam nos corações vazios que restaram pós tragédia de Chapecó.

As notícias se acumulam, uma atrás da outra, sem que nos sobre tempo de saber. Algumas tristes, outras péssimas, ruins e uma ou outra boa. Um ano difícil de tomar conhecimento.

Dois mil e dezesseis foi o ano que o povo não saiu das ruas. Contra as Olimpíadas, as obras do metrô, a favor das olimpíadas, do impeachment, do golpe, da PEC, contra e a favor da reforma da previdência, fora Cunha, fora Renan, volta Lula, prende Lula, viva o Moro, olha o Aécio com o Moro… Se este ano o movimento que “bombou” foi o “Vem Pra Rua”, ano quem vem vai ser o “Volta Pra Casa”, que a família tá com saudade.

As notícias se atropelam e as emoções ficaram com tempo curto para acontecer. A alegria e o sofrimento começam e terminam cada vez mais rápidos. Entre uma notícia e outra, pouco tempo pra sorrir ou chorar.

Talvez isso explique um pouco as emoções à flor da pele. As pessoas ou estão muito tristes ou estão muito felizes. Nos dois, os gritos são altos. Nas redes sociais, emoções extremas. As brigas entre os dois lados são intensas. E não é o bem contra o mal, porque nem todo mundo que chora está na pior, nem todo mundo que ri está feliz. A briga é mesmo entre as emoções. Quem ri mais alto, quem chora mais molhado… e com as emoções tão intensificadas em tão pouco tempo, as reações se precipitam e, muitas vezes, se banalizam.

Digo isso tudo numa tentativa de justificar minha perplexidade com os fatos que ocorreram logo após a tragédia no voo da Chapecoense. Com certeza, essa vai ser a notícia mais triste desse ano triste. Uma tragédia sem precedentes no esporte, no jornalismo e na aviação. Mas confesso que, além de emocionado, fiquei assustado com a velocidade que as notícias tomaram a redes, os jornais, os clubes e os marketings das empresas.

As famílias ainda aguardavam informações das vítimas da tragédia enquanto times faziam promessas de empréstimos de jogadores, de ajuda financeira e solicitações à CBF para o uso do escudo da Chape no uniforme. Mães ainda choravam com as poucas informações dos seus filhos, enquanto marcas subiam os preços dos uniformes da Chape nos seus sites. Torcidas organizadas prometiam fim às rivalidades, que se arrastam por anos, enquanto parentes das vítimas brigavam por um mínimo de informação. Reações precipitadas atropelavam as emoções de famílias arrasadas pelo acidente.

As manchetes estão atropelando o que nós temos de mais valioso, nossa humanidade. O silêncio ainda é a melhor forma de respeito e solidariedade. Mas o tempo tem sido cada vez mais breve para as emoções.

No dia da maior tragédia esportiva do mundo, o Brasil chorou no molhado.

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