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O dia em que hoje virou amanhã

Acordo cedo no albergue em Madrid. Às cinco da manhã, estou com a mochila nas costas e deixo em silêncio o quarto que dividi com mais cinco turistas que não conheci. Saio rápido pela entrada da hospedagem, que dá para o centro da cidade. Para que eu consiga começar o Caminho amanhã, preciso pegar o primeiro metrô do dia, chegar à estação de ônibus antes das sete e embarcar para o primeiro trajeto da minha jornada. Tenho duas paradas pela frente antes de chegar à França.

Corro para a estação de trem, erro o metrô, sinto fome, mas evito comer para não correr o risco de não começar meu Caminho amanhã. Toda pressa, toda sede, todo suor que escorre hoje de mim é para amanhã subir o Pirineus, um morro de mil e quinhentos metros de altura. Pego um ônibus de Madrid para Zaragoza, depois mudo de estação, pego outro ônibus de Zaragoza para Pamplona e, por fim, atravesso a fronteira da Espanha com a França em um terceiro ônibus para chegar na cidade do amanhã.

A cabeça já está no Caminho. Chego a Saint Jean, tomo um banho, saio para comer, compro água e comida suficientes para o dia de hoje. Compro também um novo fone de ouvido, pois descubro que, na pressa de chegar no amanhã, esqueço algumas coisas em Madrid: um shampoo, uma toalha e uma pasta de dente.

Almoço e janto pensando no Caminho. Como pouco com medo do peso que vou começar a caminhada. Tenho medo, ansiedade e muitas dúvidas. Será que os treinos que fiz durante um ano, eles vão funcionar pro amanhã? Será que os meus tênis, eles vão aguentar? Já que o trecho é bem duro, devo levar quantos litros de água? Se levo pouco, me falta. Se levo muito, me pesa. Levo ou não levo comida? Será que no morro tem cafeteria? Será que vai chover? Será que vai ter sol?

Tudo ou quase tudo que fiz nos meus últimos meses foi pensando no meu próximo dia. Tento me acalmar, aproveitar Saint Jean como a cidade bonita que é, mas observo as pessoas viverem esse dia como se estivessem num grande acontecimento. Elas estão felizes, tudo funciona bem, os semáforos acendem e apagam como deveriam, as luzes da cidade iluminam e eu penso que, para quem não tem um amanhã, todo dia é um grande dia.

Decido voltar para o albergue mais cedo e dormir. Deito-me na cama e demoro a pegar no sono. E sonho um sonho absurdo: já é amanhã, levanto-me da cama, pego a mochila e vou para o Caminho. No meio da rua, algumas baleias ainda dormem. Só uma me olha, como se me esperasse ansiosa. Então eu pego em suas mãos, mesmo sabendo que baleias não têm mãos, e começamos juntos a subida. Ela não consegue dar um passo sem que eu a ajude. E mesmo sabendo que baleia não dá passos, insisto e até arrasto-a morro acima. Quando chego no topo, ela some, o morro também evapora e acordo.

Acordo assustado, até entender onde estou. Então me levanto, sou o primeiro peregrino a acordar, pego devagar a mochila, com cuidado para não despertar as outras pessoas do quarto. Desço as escadas do albergue, alcanço meus bastões, que estão em um porta-cajados perto da porta de saída, e caminho para a rua.

Ainda está escuro do lado de fora. E eu só consigo acreditar que o dia de hoje é o tão esperado amanhã quando não vejo as baleias.

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vivemos desejando mais o que não temos do que o que temos. como quem chega a um banquete e só lamenta de não conseguir provar todos os pratos da mesa.