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Nem divina nem profana


Quando escrevi minha primeira crônica sobre minha vó, minha família me disse: “Sua vó não era bem essa santa”.

Confesso que fiquei, por um tempo, me achando errado por ter escrito a história baseado na minha memória sobre minha vó. Depois, fui ganhando “casca”, um termo que quer dizer proteção e coragem, para bancar minhas próprias memórias. Pois sim, é preciso ter coragem para escrever as histórias que só os nossos olhos enxergam e o peito sente. E, claro, é preciso também de uma pitada de fantasia para ajudar o conto a ganhar importância.


Só fui entender o poder das minhas próprias memórias escrevendo-as. Aprendi que mesmo que eu conte uma história do jeito mais próximo dos fatos, será sempre uma história que só os meus olhos viram, de um ângulo que só a minha posição na Terra poderia captar, com as sensações que só o meu peito poderia sentir. Se minha mãe também viu a história, se meus irmãos também estavam presentes no acontecimento, mesmo assim nossos olhos captariam imagens diferentes. Jamais veríamos o mesmo acontecimento, não teríamos as mesmas sensações e, principalmente, não usaríamos — ou não deveríamos usar— as mesmas palavras.


Pois bem. Deixe-me usar minha memória e minhas palavras para contar um pouco mais sobre minha vó.


Para mim, ela sempre foi a do Amor Divino. Seu nome completo é Clariscinda do Amor Divino, conhecida como Dona Nininha. E mesmo que ela não tenha sido uma santa, no trecho de vida que meus olhos viram, do ângulo que estou e com o peito que carrego, minha avó sempre foi uma figura sagrada na nossa família. A velha gosta de ser não só a divina, mas também a profana aos nossos olhos. Mulher de feitos e malfeitos.

Minha família às vezes a chama de teimosa ou pirracenta. Eu usaria outra palavra para definir minha vó: malandra. Ela tem o swing do malandro para fazer a malandragem e ainda ficar bem na fita. Aliás, como ela gosta dessa fita, de chamar a atenção para ganhar a audiência da família. É artista. E como todo artista, é adoradora do aplauso.


A vó pinta, desenha, costura, corta cabelo, cuida das plantas e dos netos, a divina. E ainda dá trabalho para os filhos, não para quieta no lugar, gosta de fazer as intriguinhas e é exageradamente ativa, a profana.


Antes do tombo, não parava em casa. Ora estava na igreja, ora na casa das amigas, nas excursões com outros idosos, em visita a algum parente. E se estava em casa, estava cantando, declamando, contando uma piada ou, quase sempre, espalhando uma fofoquinha. É preciso energia para acompanhar essa artista multifacetada, a do Amor Divino.

Aí, com 86 anos, na pandemia, tomou um tombo andando num quintal. Num descuido, para não chamar de teimosia, um pé mal pisado num montinho de grama a fez cair de bunda e quebrar a cabeça do fêmur. Fez cirurgia. Ficou na UTI por segurança, segurou. Foi para o quarto do hospital por precaução, e precaveu. Depois foi para casa.


Agora está lá, mais amuada, com hipotireoidismo, talvez acelerado pelas complicações da queda, no oposto do costume de Dona Nininha: pensando mais, agindo menos. Nem divina nem profana. Talvez num vão entre as duas.


Ou mais próxima da santa.