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Me ajuda a olhar

Me ajuda a olhar Lucão


Tem uma crônica do Eduardo Galeano que eu gosto demais e explica o vazio reflexivo que nós, como sociedade brasileira, vivemos hoje. O texto se chama “A função da arte” e está no Livro dos Abraços (1989). Nele, em resumo, um pai leva o filho para conhecer o mar. O filho, então, diante da imensidão do mar e de tamanha beleza, pede ao pai: “Me ajuda a olhar!”


O título do texto de Galeano, no Livro dos Abraços (1989), ao lado do pedido feito pelo filho, seria a função da arte: ajudar a olhar; enxergar o mundo; ver mais longe e profundo; mergulhar nas imagens que os olhos veem; assistir o que ainda não foi visto; nadar sobre os vários caminhos que o olhar aponta.


Esse texto, além de importante para pensarmos sobre o papel da arte, é também fundamental para compreendermos o exercício da arte hoje. A literatura, a arte escrita, é o elemento capaz de nos fazer enxergar a imensidão da nossa sociedade, seja na política, nas relações pessoais, nos sentimentos, nas inovações e em tudo que pode ser contemplado pelos olhos da cara e da alma humana.


Arte é visão. Ou melhor, visões. São as diversas formas de ver a existência ― terrestre, mística, comportamental, espiritual, artística, transcendental ― do ser. A literatura nos faz ver através das palavras. Por isso, uma sociedade carente de arte, de escrita e leitura, é uma sociedade que não enxerga os problemas que enfrenta, o passado que viveu nem os desafios que estão por vir. É uma sociedade às cegas.

Não é à toa que em países em desenvolvimento ― ou subdesenvolvimento? ― como o Brasil, a arte enfrenta dificuldades para ocupar os olhos do povo, impossibilitando, inclusive, o reconhecimento do seu papel civil. A não-arte é um projeto político arquitetado para impedir as pessoas de verem. Por mais que peçamos ajuda para enxergar, sem o acesso à literatura e à produção artística como um todo, ficamos impossibilitados de ver.


Mesmo que imitando a vida, nas definições ainda platônicas, a arte espalha a história. Reverbera os acontecimentos do passado para mais olhares, num papel importante de resgate e memória. Enquanto ficção, a literatura é capaz de aumentar essa visão, ampliar as margens da íris, fazer previsões, mesmo que exageradas, sobre a existência humana. A arte amplia as fronteiras dos olhos.


Talvez seja a descoberta dessa função da arte, a de ajudar a olhar, a mais capaz de fazer com que as pessoas se mobilizem para que a literatura esteja cada dia mais acessível, mais próxima dos olhos do povo. E então, enquanto engrandece e amplia as visões, o acesso a essa arte continuará a reivindicar mais literatura para que a vida se torne cada dia maior, ou imensa, como o mar visto pelo filho, no texto de Galeano.


A literatura é capaz de cumprir essa função, de nos ajudar a olhar. É com muita leitura que conseguiremos ver e interpretar melhor o que acontece com a nossa gente, nosso povo, nosso sistema, a miserável política. E, sem dúvida, é com mais literatura que vamos conseguir ampliar a vida e dar infinitude à imensidão do papel da arte.


Nesse contexto, navegar é preciso. Olhar não é preciso. É urgente.




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