Buscar

História esquisita


Toda vez que escrevo sobre o Caminho, conto uma história bonita. Eu sei que romantizo a caminhada, eu sei. Por isso, quero contar outra coisa:


O caminho, como a vida, também pode ser bastante esquisito.


Outro dia me lembrei do Antônio, um italiano que esbarrou comigo por lá. Nos conhecemos numa confusão de toalhas. Foi em Zubiri, no segundo dia. Depois do banho da tarde, estendi minha toalha no varal e, quando voltei para buscá-la, não estava mais lá. Procurei por todo o quintal, até encontrar uma idêntica na outra ponta do varal. Logo vi um peregrino segurando a minha toalha. Me aproximei, interrompi sua conversa com uma peregrina, me apresentei e falei do equívoco. Mostrei onde estava a toalha dele. Rimos e, rapidamente, desfizemos a bagunça. Antônio pareceu ter ficado feliz em saber que eu era brasileiro. Nos despedimos e saí.


Depois do jantar, peguei meu caderno e voltei ao quintal para escrever, uma rotina que pretendia cumprir. Me sentei no canto de uma mesa grande perto de outros peregrinos, abri meu caderno e, antes que pudesse começar, fui interrompido por Antônio, que queria conversar.


Sem muita demora, se abriu. Ele estava machucado e a culpa era de uma brasileira. Me contou, sem respirar e num português ruim, que também era sua segunda vez no Caminho; que na primeira, conheceu uma brasileira, se apaixonou e assumiram um namoro; que depois da jornada namoraram à distância; que meses depois foi atrás dela no Brasil; e que quando se viram, ela o dispensou. Antônio não parava de falar.


Então, passou a falar mal do Brasil: “Porque você sabe que brasileiro é estranho”, “Porque você sabe que brasileiro é ladrão”, “Porque você sabe que as mulheres são todas...”, foi quando o interrompi, não queria mais ouvi-lo. Disse que ele estava sendo preconceituoso e que eu precisava escrever. Pedi licença, me levantei e fui para a cama.


Fiquei com uma sensação esquisita de Antônio, que parecia triste, mas, acima de tudo, doente. Então decidi evitá-lo. Segui conhecendo outros peregrinos, fiz amizades bonitas, criei laços fortes com uma turma. E não vi mais Antônio por dias.


Foi no décimo dia que voltamos a nos ver, num outro albergue. Ele estava sentado no gramado do quintal, pegando sol e conversando com a mesma peregrina. Nos cumprimentamos e trocamos amenidades, como se o primeiro papo não tivesse acontecido. No dia seguinte, nos encontramos em outro albergue e ele estava, aparentemente, feliz. Falamos pouco.


Dois dias despois, voltamos a nos encontrar, na estrada, pela última vez. Ele caminhava com a mesma peregrina de sempre. Me contou que estava abandonando o Caminho para ajudar sua amiga que não estava bem. Não disse mais nada e se foi.


Fiquei pensando na história da brasileira. E que se essa peregrina de agora não era mais uma mulher sufocada por um homem doente. Se ele, na verdade, não era um maníaco, que sempre voltava ao Caminho atrás de mulheres. Ou se eu não estava pensando demais. Não sei.


Minha raiva do Antônio falando mal do Brasil só me deixava pensar que essa era uma história esquisita do Caminho para eu guardar.


E ainda tem a do velho que foi preso vendendo drogas. Mas essa é outra história.