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Conversa de 2 mil e oito


O baile já tinha acabado, e os dois amigos perambulavam pela rua rumo ao ponto de ônibus. Ambos haviam bebido muito na virada, mas já era quase dia e o alcool já tinha feito o efeito há um tempo. Esta fase da bebida é anestésica, é nela que as histórias mais sem nexo saem pela boca como num refluxo:

– Ano novo, vida nova… cadê?

– Cadê o que?

– A vida nova, pô!

– Sei lá!

– Todo ano é assim, a gente deseja uma vida nova, novos sonhos, novos pedidos, pra no fim tudo continuar o mesmo.

– Mas você queria o que, Tamiro? que acontecesse assim, como mágica?

– É! já pensou? meia noite, todas as mulheres feias do salão somem e de repente o baile se enche de mulheres bonitas. Os garçons viram garçonetes peitudas e safadas. A banda dá lugar a dançarinas de pole dancing, igual a novela…

– Foi isso que você pediu? um monte de gostosas para o novo ano?

– Esse ano não, ano passado. Lembra que só tinha mulher feia na festa? eu fiquei puto, pô! ia pedir o que? – Sei lá, saúde, paz…

– Isso a gente pede sempre, e nunca adianta… você mesmo, que paz teve com seu casamento no ano passado? o casamento acabou e tu quase morreu de pneumonia. Não adianta, Carito. Pedido de ano novo é fantasia, pra encher a gente de falsa esperança, pra gente continuar a trabalhar, gerar dinheiro pros outros e para os nossos chefes terem anos de paz e saúde. Esses sim terão paz e saúde o ano inteiro.

– É… já pensou? dá meia noite e o ano vira e a gente percebe que não é 2008 e sim… 2030? pegaríamos nossas naves e iriamos embora pra casa, num instante.

– Nave? até lá já terão inventado o teletransporte. A gente entraria em uma capsula que nos teletransportaria para nossas casas, num instante estaríamos dormindo em nossas camas…

– O ônibus! corre Carito!

Os dois entraram na capsula. A viagem era longa, eles eram vizinhos e moravam do outro lado da cidade. Dormiram. Ambos só iriam acordar quando chegassem em casa, quase como previu Tamiro.