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Caixa velha de sapatos


Sempre tive caixas de sapatos cheias de papeis e saudades. Minhas cartas de amor trocadas na infância estão guardadas até hoje numa caixa. Tenho as cartas que troquei com namoradinhas e romances antigos; cartas de família e de amigos; e até as cartas mais novas que recebi nessa minha história de escritor.


Sou dessa época, de guardar papeis em caixas. Até pouco tempo, meus documentos pessoais, certificados e contratos também ficavam em caixas, mas achei melhor, ao menos com os documentos, me atualizar. Hoje guardo a papelada burocrática em pastas-sanfona, mais seguras e práticas. Mas as cartas, as fotos, os bilhetes e os cartões postais, esses não, têm que ser na caixa velha de sapatos, onde as memórias ficam mais bonitas.


O meu tempo é o das cartas escritas em papel, de papeis diversos, não só brancos e com pautas, mas também coloridos, de tamanhos e acabamentos diferentes. Sou do tempo em que escrever era um ritual que levava horas. Começava na papelaria, escolhendo o papel — o tipo, a gramatura e a cor — e terminava numa noite inteira, escolhendo as palavras para me declarar à pessoa amada.


Nessa minha caixa há de tudo do universo das cartas: as cartas em si, mas também as fotos que recebia junto às cartas, bilhetes trocados em sala de aula, declarações anotadas em pedaços de papel, cartões postais e também os términos de namoros... Caramba!, sou desse tempo em que se terminava namoros por cartas.


Me lembro de uma namorada, que talvez tenha sido a mais engajada nesse conteúdo, de cartas, que esperou eu viajar de férias para a casa do meu pai para me enviar a carta mais rasteira: a do término. Como sofri! Demorei a me recuperar. Talvez esse seja um dos males de manter as cartas guardadas: a longevidade da dor. (Que drama!)


Mas também vivi namoros saborosos, à distância, mantidos somente por cartas. Me lembro de uma menina da Bahia, a Camila... A gente se chamava de “garotinho” e “garotinha”. Namoramos por aproximadamente dois anos, numa espécie de relacionamento aberto. Nunca chegamos a nos conhecer. Trocávamos cartas de amor para contar sobre os outros amores que vivíamos. Que saudade!


Também já me relacionei com pessoas que quiseram botar fogo nessa minha caixa, como se o passado pudesse ser apagado assim, com as chamas — não as da paixão, mas as do desespero. Não deixei. Terminamos por isso e, claro, no seco, sem cartas.


Já me mudei muitas vezes de casa, mas a caixa ainda está intacta. Melhor, não tão intacta, pois o tempo não é gentil com o papelão. Já troquei a caixa velha por caixas mais novas. A primeira durou anos, mas terminou toda remendada. Depois, passei a comprar tênis pensando nas caixas. Se o tênis fosse bom, mas não viesse com caixa, não comprava.


Hoje ela está ali, no quartinho, fechada com fita adesiva por conta da última mudança. Para que esse passado não se perdesse, lacrei a caixa. (Ou para que nenhuma faísca entrasse despretensiosamente por uma fresta do papelão e botasse fogo em tudo)


Ah!, que pena eu tenho dessa geração que desconhece o poder que uma caixa velha de sapatos tem para guardar saudades.

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