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Batismo com nota de cem

No dia em que descobri que eu tinha uma madrinha, foi como se descobrisse um tesouro guardado numa caixa velha de sapatos.


Foi numa foto guardada numa caixa velha de sapatos que a vi pela primeira vez. Era um retrato de 1986 — nas fotos antigas, as datas vinham marcadas no canto do papel. A Celi, grávida, estava de pé, ao lado de um fusca branco, usava um macacão vermelho comprido e posava em frente ao nosso antigo prédio. Lembro que ela estava com um sorriso que me remetia ao das madrinhas divertidas que os meus amigos diziam ter.

Na época, com dez anos de idade, todo mundo tinha uma madrinha. Madrinha, para quem não sabe, é uma espécie de m­­­­­­­­ãe, que fica com a parte fácil da maternidade: aparece de vez em quando, tem a postura ereta, pois não carrega o fardo, e sempre dá presentes.


Oficialmente, o meu batismo não havia acontecido. Era uma madrinha de consideração. Minha mãe conheceu o meu pai num grupo de jovens da igreja Católica. Quando engravidou, escolheu meus padrinhos. Mas no meu nascimento, migraram para o Espiritismo, religião sem batismo, e eu fiquei numa espécie de limbo religioso. “Justo na minha vez?”.


Quando meus amigos descobriram, invalidaram meu batismo.


Foi na casa da vó, numa manhã de domingo, que a conheci. Naquele dia, eu acordei cedo, me arrumei e fui esperá-la. Quando chegou, minha mãe a recebeu e foram as duas para a sala. Depois de alguns minutos, com a ansiedade controlada, apareci. Assim que me viu, a Celi abriu um sorriso igual ao da foto. Comentou como eu havia crescido, elogiou meu cabelo comprido e falamos de assuntos que não me lembro bem. Só me lembro da cena, do rosto da Celi e da alegria que senti naquele dia. Minha madrinha era muito discreta, falava baixo e devagar, e isso a deixava ainda mais elegante. Eu a escutava, mesmo que não entendesse tudo o que dizia. O que importava era que agora eu tinha uma madrinha.


Nos falamos pouco naquele dia. Continuamos nossa conversa por e-mails e em outros encontros, como o do dia que fui à sua casa e viramos a noite numa prosa boa. Minha mãe e a Celi não se viam há anos, e aproveitaram o encontro para matar a saudade, botar os assuntos em dia, falar do divórcio que ambas haviam enfrentado. Tímido, aproveitei, saí da sala e deixei que conversassem a sós.


Só quando a madrinha se levantou para ir embora, minha mãe me chamou de volta. Trocamos mais algumas palavras e, antes que partisse, Celi estendeu sua mão e me entregou meu presente: uma nota de cem reais, muito dinheiro para aquela época. Disse-me algo como: “Não deu para comprar um presente, então compre algo para você”. Olhei para minha mãe, que não me impediu de pegar o dinheiro, agradeci à madrinha e nos despedimos.


Foi um encontro perfeito, eu pensava enquanto mostrava meu presente aos irmãos. Aquela nota de cem reais era uma espécie de batismo para mim. Era o item que faltava para provar aos amigos que eu tinha uma madrinha de verdade.


Uma madrinha que, além de ser a mais bonita, também era a mais generosa.

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