Buscar

É hora do almoço


Semana passada escrevi sobre minha vó materna e me dei conta de que a comida está sempre no centro das recordações com ela.


É uma foto muito nítida: a gente na cozinha da vó, ao redor da mesa branca de mármore que decorou o ambiente dessa casa por muitos anos, o forro de mesa, a garrafa de café no centro, os pães de queijo, o bolo e os biscoitos ao redor. Essa foto está pendurada no primeiro fio do varal da minha memória. Como a gente comeu nessa mesa! Sempre recheada de sabores mineiros... A vó Nininha trouxe de Minas a habilidade da cozinha, que a minha mãe herdou e incrementou com o toque goiano.


Tenho outras fotos: da gente comendo na sala, nos quintais e até no carro do vô quando ele nos buscava na escola e escondia os saquinhos de pipoca doce debaixo do banco pra que gente encontrar. Adorávamos as brincadeiras com as comidas. E os dois, o vô e a vó, se aproveitavam das brincadeiras para nos ter sempre por perto. Minha infância com esse lado da família teve essa receita de sucesso: comida simples, em fartura.


Costumo me lembrar da família da mãe quando vou ao passado, porque foi com ela que mais convivi. Mas é só provocar um pouco mais a memória, que as lembranças da família do pai também vêm.


Com os dois separados, nossos domingos eram revezados, ora com o pai, ora com a mãe. E nos domingos com o pai, íamos almoçar na vó Jovita.


Éramos mais acanhados com ela, convivíamos menos, nos víamos pouco, então chegávamos tímidos à mesma casinha que meus avós moraram por décadas: portão baixo de grade de metal vazado, um bloco de casa de concreto do lado esquerdo, uma garagem pequena do lado direito, sempre vazia, e ao fundo, o quintal com algumas árvores e a horta, que ela tinha prazer em cultivar.


A gente chegava, abria o portão, que dava uma rangida alta, e entrávamos pela sala, normalmente já cheia de tios e primos. Cumprimentávamos a todos, um a um, depois íamos à cozinha pedir a benção da vó. Ela passava a manhã por lá, preparando uma parte da comida daquele batalhão. A outra parte, ela fazia no fogão a lenha que ficava na varanda do quintal. Era para lá que seguíamos depois das bênçãos, onde o pai matava a saudade dos quase dez irmãos que tinha, todos à espera do almoço.


Não me lembro de ver essa casa vazia. Estava sempre cheia de filhos, netos e agregados. E aí, quando o almoço ficava pronto, ela avisava os filhos da varanda e da sala, que repassavam o comunicado aos demais. Íamos todos fazer fila na cozinha, onde as panelas imensas de alumínio ficavam. Me servia, depois voltava à varanda para me sentar na mureta que rodeava todo aquele espaço. O prato ia para o colo, com cuidado para não cair, e comíamos um ao lado do outro, numa roda sem fim de parentes.


O almoço era tipicamente goiano: quase sempre, um frango caipira feito no fogão a lenha, com caldo amarelado e grosso, que fazia meu pai até chorar quando comia.


Aí, depois do choro, não tinha demora, já começava a romaria da partida. Era uma saída demorada, que terminava com a benção da vó.


Da porta de casa, um a um, dona Jovita abençoava, enquanto o rangido do portão ia contando as despedidas.